bom dia. Foi a semana em que abrir jogos e programas fechados ficou coisa de dias. E duas notícias da semana passada seguem rendendo: usar IA ficou bem mais barato, e a OAB-SP foi à Justiça para dizer até onde a IA pode ir.
🚨 OS BREAKTHROUGHS DA SEMANA
1. Abrir a caixa-preta virou trabalho de dias
TL;DR: agentes de IA estão descompilando jogos e programas em dias. Antes, eram anos de trabalho de comunidade.
Descompilar é pegar um programa pronto, sem o código-fonte, e reconstruir como ele foi escrito. Quem fazia isso eram especialistas ou comunidades inteiras, ao longo de anos.
Na quarta (14), o desenvolvedor indie Popcar listou o que mudou. Com IA, saíram versões novas de The Binding of Isaac (a versão original, em Flash, agora em 1440p), Colin McRae Rally 2.0 e Final Fantasy Tactics Advance, entre outros. O do Isaac levou alguns dias, segundo ele. Ele mesmo admite que o código não sai tão limpo quanto o feito à mão. O título do texto já diz tudo: "awesome and scary" (incrível e assustador) (Popcar; Simon Willison).
No dia seguinte veio o sinal mais forte. O decomp.dev, índice e placar dos projetos dessa comunidade, anunciou que está encerrando: o índice e a entrada de projetos novos foram desativados, e o que existe fica no ar como arquivo. Segundo o site, o lado comunitário do trabalho foi quebrado por quem usa IA para tomar e portar projetos alheios (decomp.dev; 404 Media).
Um exemplo de ferramenta do tipo é o REA, que liga o agente de IA a programas de inspeção como o Ghidra e roda na máquina do usuário. Tem mais de 308 mil estrelas no GitHub, mas não é novidade da semana: o repositório existe desde abril (GitHub).
🚨 Por que é breakthrough: o tempo para entender por dentro um programa que não é seu despencou de anos de especialista para dias de agente.
⚖️ E é legal? O Popcar afirma que descompilar é "completamente legal". No Brasil, não é tão simples:
- a Lei do Software (Lei 9.609/98) não fala em descompilação nem em engenharia reversa;
- ela põe o software sob o regime do direito autoral (art. 2º);
- as exceções do art. 6º não citam a descompilação, e a mais próxima, a "integração" do inciso IV, vale só para uso exclusivo de quem a fez;
- violar o direito do autor de programa é crime (art. 12).
A lei, portanto, não resolve a questão (Planalto). Opinião: na prática, a resposta tende a depender da licença do software e da finalidade. O próprio REA avisa que é para software que você possui ou está autorizado a examinar (REA).
2. A IA pequena ficou 4 vezes mais barata
TL;DR: o Claude Haiku 5.5 custa, na média, cerca de 75% menos que o Haiku 4.5 e acerta bem mais em tarefas de computador.
Saiu em 7/10, antes desta newsletter existir, por isso entra aqui. A preço de tabela, são US$ 0,10 por milhão de tokens de entrada (em prompts de até 100 mil tokens), contra US$ 1,00 no modelo anterior, um corte de 90% (preços). Mas o modelo novo conta o mesmo texto em cerca de 30% mais tokens (guia), e prompts longos custam mais. Por isso a própria Anthropic fala em ~75% de economia média (Anthropic).
Em escala: resumir 1.000 contratos (5 mil tokens de entrada e 500 de saída cada) sai por US$ 7,50 no modelo antigo e cerca de US$ 1 no novo, já contando os 30% de tokens a mais (conta nossa, com os preços oficiais). Num teste de uso de computador (OSWorld 2.1), ele foi de 15,7% para 72,4% de acerto. Os números são da Anthropic.
🚨 Por que é breakthrough: automatizar tarefa simples e repetitiva, como triar, resumir ou classificar, ficou barato o bastante para caber no orçamento de um escritório pequeno.
Transparência: esta newsletter é escrita com modelos da Anthropic.
Não passou no critério: o Gemini 4 Argon, do Google (13/10). Ele só está nos planos pagos, a partir de R$ 96,99/mês. Na API, custa US$ 2 de entrada e US$ 10 de saída por milhão de tokens até 30/11 e depois dobra, para US$ 4 e US$ 20. O Gemini 3.1 Pro custa US$ 2 e US$ 12 (Google; planos; preços).
O QUE MUDOU DESDE ONTEM
→Meta: depois da reação, tirou da versão em inglês dos novos termos a frase que, segundo especialistas, poderia permitir usar o conteúdo dos sites para "treinar" produtos. O robô continua autorizado nos sites de clientes comerciais, agora para "desenvolver, melhorar, pesquisar e manter" produtos de anúncio e negócio. Até a noite de sábado, a versão em português ainda trazia o texto antigo. A Meta diz que "não é sobre raspar sites de notícia" (The Verge; termos).
→Agentes barrados: a Delta impede agentes de comprar passagens, o JPMorgan e a Schwab bloqueiam agentes nas contas, e o Yelp só libera quem paga pela licença de dados (The Verge). Ontem falamos de agente invadindo sistema. Hoje o movimento é o contrário: os sites trancando a porta.
→6x1, com correção: ontem escrevemos que a jornada de 42h valeria "em 60 dias". A emenda diz 2 meses após a publicação (16/10), e esse prazo termina em 16/12/2026 (conta nossa; há quem conte a partir de 17/12). As 40h vêm um ano depois (EC 141). Na Câmara, Hugo Motta mandou aplicar a escala nova a ~1.700 terceirizados a partir da próxima semana (Câmara).
📊 OS NÚMEROS DA SEMANA
→US$ 16,8 bilhões: a receita da Anthropic no 3º trimestre, cerca de 45% acima do anterior, segundo um investidor que estava na apresentação da empresa (Reuters; Simon Willison). A empresa não divulgou os números. Segundo a Bloomberg, a oferta do IPO pode começar na semana de 9/11 (The Next Web).
→US$ 40 mil: foi o gasto em IA da empresa de segurança XBOW para montar, em 6 dias, um ataque completo ao Chrome. Era a segunda tentativa: a primeira levou 2 meses e foi descartada. Segundo a XBOW, o Google concedeu US$ 250 mil de recompensa, e a falha já foi corrigida (XBOW). A empresa estima que, sem IA, seriam 4 pessoas por 6 a 9 meses (relato técnico).
→392 mil: são as estrelas do OpenClaw, o agente pessoal de código aberto. Parece explosão, mas eram 388 mil no fim de agosto (GitHub; GitHub Blog). Opinião: o hype também estaciona.
🧠 IA NA PRÁTICA DA SEMANA
Duas IAs jurídicas, dois destinos
A diferença entre ferramenta e substituto do advogado parece filosofia. Desde o dia 7, ela virou processo.
Nos EUA, o escritório Sullivan & Cromwell criou com a OpenAI o Agreement Analyzer, apresentado em 17/09. O advogado põe a minuta, os precedentes e o "playbook" do escritório. Pela descrição do sócio John Savva, agentes revisam por ângulos diferentes, e outros agentes contestam os achados. A saída é um memorando com alterações em controle de alterações, que o advogado revisa, adapta ou rejeita (OpenAI; Bloomberg Law).
Em São Paulo, a OAB-SP entrou em 07/10 com uma ação civil pública contra a legaltech Enter (processo nº 5031169-20.2026.4.03.6100). A tese é que a plataforma pratica atos privativos da advocacia sem ser sociedade de advogados. Os pedidos:
- em caráter de urgência, que novos contratos tenham advogado responsável identificado, sob multa de R$ 50 mil por contrato;
- supervisão humana auditável;
- R$ 1 milhão de dano moral coletivo.
A Enter nega que substitua advogados e diz que a revisão, a assinatura e o protocolo ficam com eles. Não encontramos decisão até 17/10 (OAB-SP; Lawletter; Startups).
⚖️ A ideia de "ato privativo" vem do Estatuto da Advocacia: são privativas da advocacia a postulação ao Judiciário e a consultoria, a assessoria e a direção jurídicas (Lei 8.906/94, art. 1º) (Planalto).
⚠️ O freio:
- O caso americano é um estudo de caso publicado pela própria OpenAI e não traz nenhum número de desempenho.
- O brasileiro ainda não tem decisão.
- A fronteira entre ferramenta e substituto não foi julgada.
Agora aplica no mundo real:
- Advogado: a ideia de "agente que contesta o outro" funciona até sem software próprio. Peça a revisão a uma IA e, depois, peça a outra que ataque essa revisão.
- Estudante de Direito: use a IA como parte contrária. Peça que ela derrube a sua peça antes do professor.
- Quem cria legaltech: Opinião: os pedidos da OAB-SP funcionam como um checklist de produto: advogado responsável identificado, registro de revisão e nada de vender como "substituto".
Como isso vira serviço: montar, para escritórios pequenos, o "playbook" de cláusulas e um fluxo de revisão com IA em que o advogado assina e fica registrado. Opinião: depois da ação da OAB-SP, a parte de conformidade, com a trilha de quem revisou o quê, vale tanto quanto a IA.
Para ler no fim de semana:
- [Para ler] O texto do Popcar sobre a descompilação de jogos, em inglês, com os dois lados.
- [Curiosidade] Um rim de porco "congelado" por mais de um ano voltou a funcionar (MIT Technology Review), produzindo cerca de 2/3 da urina esperada e com sinais de lesão. Ainda é preprint, e para comparar: hoje um órgão humano dura de 24 a 36 horas fora do corpo.
- [Para ler] Import AI 476, de Jack Clark: os novos modelos abertos americano (Beam) e europeu (Mistral Large 4) ainda ficam atrás do chinês GLM-5.3 em código. Clark é cofundador da Anthropic (Anthropic).
Pergunta da semana: se uma IA fizesse a primeira versão de todas as suas peças, o que exatamente continuaria sendo trabalho seu?