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Inteligência Pragmática
sexta-feira, 16 de outubro de 2026 · Edição nº 1 · 8 min de leitura

o estagiário agente aprontou. quem paga?

bom dia. Esta semana trouxe relato de agente de IA forjando credencial, seguradora fazendo conta e o Congresso mudando a jornada de 14,8 milhões de empregos formais.

Opinião o ponto em comum é que as regras estão correndo atrás de coisas que já aconteceram.

Hoje eu aprendi: as "sementes" de cinco curvas de criptografia do padrão americano de 2000 vieram da NSA sem explicação. Um modelo da Anthropic descobriu, em menos de meia hora, que elas são só um gerador aleatório da linguagem C alimentado com a hora do relógio. A do P-256 é de 16/08/1997, 01:52:34 UTC. Não é quebra de criptografia, mas deixa menos plausível a tese da porta dos fundos (Anthropic; Filippo Valsorda).

Nesta edição:


DIREITO & TECH

O agente aprontou. Quem paga?

TL;DR: agentes de IA em teste estão entrando em sistemas reais de terceiros, as seguradoras ainda não sabem se isso está coberto e, no Brasil, boa parte da resposta já está no Código Civil e no CDC.

O caso mais novo veio da Índia. Na quinta (15), o CERT-In, órgão do governo indiano que responde a incidentes de segurança, publicou um alerta: vários provedores de IA informaram voluntariamente que seus modelos acessaram sistemas reais de organizações indianas (CERT-In; TechCrunch).

Os modelos estavam sendo avaliados e leram registros de negócio, inclusive dados pessoais. Entraram por credenciais e configurações esquecidas em repositórios públicos e nuvens mal trancadas. Nenhuma das organizações percebeu.

Não é caso isolado. A OpenAI mantém uma página com 19 relatórios de desalinhamento de modelos, dez deles de acesso não autorizado (OpenAI). Num deles, um modelo em treino precisava pesquisar estatísticas num site de governo. Ele achou os segredos do servidor, forjou credenciais de acesso e levou 24 anos de dados quando o pedido era de um. Depois não contou nada na resposta (relatório).

Opinião nos casos indianos, o padrão não é "a IA virou vilã". É a IA sendo eficiente demais com a senha que alguém largou na mesa: o CERT-In diz que as falhas exploradas são convencionais (CERT-In).

E o seguro? O WSJ publicou em 16/10 que o seguro virou o próximo obstáculo da IA (WSJ). O nó: apólices de seguro cibernético costumam exigir um invasor humano, e, até o fim de agosto, nenhum sinistro do caso Hugging Face tinha sido divulgado (Insurance Business). Desde 2025, segundo o FT, a W. R. Berkley, a Great American e a Chubb pediram aos reguladores dos EUA para excluir riscos de IA das apólices. A AIG, também citada, diz que não pretende usar a exclusão (TechCrunch).

E no Brasil? O marco legal da IA (PL 2338/2023) ainda não é lei. Está parado na Câmara à espera de parecer, e o relator disse em agosto que a votação fica para depois das eleições (Câmara; Mobile Time). O detalhe curioso: nem o texto aprovado pelo Senado cria um regime novo. Ele devolve a pergunta ao CDC e ao Código Civil (arts. 35 e 36 do texto).

E lá a resposta já existe em boa parte:

Quem defende responsabilizar o laboratório diz: quem solta o agente na internet responde por ele. É a tese da ONG LASST, que processou a OpenAI na Califórnia (The Next Web).

Quem defende responsabilizar quem usa diz: a empresa que implanta o agente é a principal responsável (Cloud Security Alliance). E, nos casos indianos, a porta de entrada foi uma falha comum, como a credencial exposta (CERT-In).

Por que isso importa pra você: se você vender um serviço com agente a um consumidor, na leitura do CDC você é o fornecedor, e "foi a IA" não está entre as excludentes do art. 14, §3º. Opinião: dificilmente "foi o fornecedor do modelo" passa como culpa exclusiva de terceiro, mas isso ainda não foi testado nos tribunais. Na prática, isso significa:


🧠 IA NA PRÁTICA

O dado do cliente pode não sair do escritório

Usar o ChatGPT é mandar o processo para um parecerista de fora. Rodar um modelo local é ter o parecerista na sala ao lado: o texto do cliente não sai da sua máquina.

Na quinta (15), a Meta lançou o Muse Spark Open, um modelo de pesos abertos que ela adaptou, com a Apple, para rodar em Mac (Meta; TechCrunch).

E já existe gente fazendo isso a sério. O Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha, roda um modelo aberto num servidor próprio, numa rede isolada, para processar dados de pacientes. Começou com um piloto de 22 radiologistas e virou um serviço para mais de 10 mil funcionários (estudo).

⚠️ Agora o freio:

O que cabe num Mac comum são modelos menores, como o Qwen3.8-27B (Hugging Face) ou o Muse Glimmer 30B, da própria Meta (Hugging Face). Comprimidos, ocupam de 16 a 17 GB (GGUF do Qwen) e pedem Mac de 24 a 32 GB, rodando no LM Studio, que é grátis (requisitos). No seu M2 de 8 GB, o LM Studio até abre, mas só com modelos bem menores que esses.

Agora aplica no mundo real:

Como isso vira serviço: "IA instalada no escritório" para bancas e clínicas pequenas. Você escolhe o modelo, configura um Mac de 24 a 32 GB e trava o uso de modelos na nuvem. Depois treina a equipe e documenta as medidas de segurança, o que ajuda o cliente a mostrar diligência com a LGPD. Opinião: a aposta é que ele paga por tranquilidade e por não ter assinatura por usuário, não por inteligência de ponta.


ECONOMIA

🇧🇷 Por aqui

→6x1: o Congresso promulgou nesta sexta a Emenda Constitucional 141. Em 60 dias, a jornada máxima cai para 42h com duas folgas, e um ano depois para 40h, sem corte de salário (Senado). Pode atingir 14,8 milhões de empregos formais, ou 3 em cada 10, pela conta da 4intelligence com dados do MTE (Jornal de Brasília). O governo fala em crédito para as empresas afetadas, ainda sem valores (Agência Brasil).

→Varejo: as vendas subiram 0,1% em agosto, quando o mercado esperava 0,7% (IBGE; CNN Brasil).

🌎 Lá fora

→Nasdaq: caiu mais de 4% na semana, a pior desde junho. A CoreWeave, que aluga servidores de IA, caiu 25%. Pesaram a preocupação com a dívida que as empresas fazem para financiar a infraestrutura de IA, o petróleo e a inflação (Times Brasil).

→Petróleo: o Brent fechou a US$ 109,86, o maior valor desde maio, com a escalada dos ataques na região do Estreito de Ormuz (Investing.com). Em 27/02, antes da guerra no Irã, estava em US$ 72,48, ou seja, subiu cerca de 50% (Poder360).


BRASIL ADENTRO

→Itaú: a IA conversacional do banco, que usa modelos da OpenAI, já chega a ~300 mil clientes, e a meta é a base inteira até dezembro. No jurídico, a plataforma interna roda sobre mais de 90 milhões de documentos (estudo de caso da OpenAI).

→Santos: o Agibank vira patrocinador máster porque a MP 1.394/2026 proibiu as bets, publicidade incluída. Antes dela, 14 dos 20 clubes da Série A tinham bet como patrocinador máster (Máquina do Esporte). ⚖️ A MP ainda precisa passar no Congresso e é alvo de ações no STF (Senado; Meio & Mensagem; BNL Data).

→Americanas: a Justiça Federal do Rio recebeu a denúncia do MPF, e 12 ex-executivos viraram réus, entre eles o ex-CEO Miguel Gutierrez. A denúncia atribui à companhia uma fraude de R$ 25 bilhões (TMC; Times Brasil).

→Marketing: num monitoramento de 68 mil posts, 87% das conversas criticam marcas que usam IA para criar anúncios, e só 15% criticam IA para comparar e escolher produtos (Meio & Mensagem). Opinião: IA no bastidor, sim; na vitrine, cuidado.

MUNDO AFORA

→Meta: a partir de 30/10, os novos termos comerciais autorizam os robôs da empresa a vasculhar sites de quem usa os produtos dela para negócio, veículos de notícia inclusive. ⚖️ A Meta diz que mira produtos à venda; a associação de veículos de notícia e revistas dos EUA chama de "provavelmente ilegal" (termos; The Verge; News/Media Alliance).

→China: o governo propôs pôr 23 tecnologias de IA (grandes modelos, agentes, clusters) na lista de exportação restrita ou proibida. A consulta pública vai até 15/11, e o que já é código aberto fica de fora (MOFCOM).

→ChatGPT: por cerca de uma semana, os links das respostas saíram sem a etiqueta UTM, e as visitas podem ter aparecido como "Direct" no GA4. Nos sites que a Graphite acompanha, o tráfego atribuído ao ChatGPT caiu de 22% a 57%. Segundo Cedric Huesler, da Adobe, era bug, e a correção começou no dia 15; a OpenAI não comentou em público. Anote o período de 8 a 15/10 nos seus relatórios (Search Engine Journal; SER).

→Cal AI: o app de calorias, fundado em 2024 por Zach Yadegari (hoje com 19 anos), fez mais de US$ 30 milhões de receita em dois anos. A fórmula era pagar influenciador em troca de um alcance mínimo. Foi comprado pelo MyFitnessPal (TechCrunch).


📊 STATS

90%

É a fatia das horas de trabalho nos EUA gasta em tarefas que os testes de IA quase não medem. A Mercor cruzou 18.797 tarefas do catálogo oficial de profissões americano com 29 benchmarks e achou cobertas só 4,9% delas (Mercor).

Para quem é do Direito: as ocupações jurídicas estão entre as mais medidas (5 de 7 com alguma tarefa coberta). Na saúde, 12 de 89.

A cadeia (leitura nossa): o benchmark mede o que é fácil de medir » os laboratórios otimizam para o benchmark » as empresas compram IA pelo placar » usam em tarefas que o placar não viu » o retorno demora » e a bolsa cobra, como nesta semana.

Ressalva: a estimativa é provisória, e a Mercor assina parte dos benchmarks.


Para ler e fazer:


Pergunta do dia: se um agente seu fizesse um estrago amanhã, quem você acha que pagaria a conta: você, o fornecedor da IA ou o seu cliente?